Copa do Mundo

5 rejeições, semiamador e sucesso tardio: Semenyo, da desistência ao protagonismo em Gana

5 rejeições, semiamador e sucesso tardio: Semenyo, da desistência ao protagonismo em Gana

A geração de ouro da seleção de Gana dos anos 2000 e 2010, que alcançou a histórica quartas de final na Copa do Mundo da África do Sul, tem sido sucedida por um grupo de jogadores também muito talentosos com influência da diáspora. Um deles é Antoine Semenyo, nascido em Londres, que lutou muito até ser reconhecido no futebol e ser um dos protagonistas dos Estrelas Negras que disputarão o Mundial de 2026.

O atacante de 26 anos chegará ao torneio absolutamente badalado. Contratado por mais de 70 milhões de euros pelo Manchester City, ele está na melhor temporada da carreira, tendo sido a primeira parte no Bournemouth até a mudança para os Citizens.

É um atacante completo: veloz, chuta com as duas pernas e pode jogar nas duas pontas ou até centralizado. Quem vê esse jogador pronto, absoluto fisicamente, não imagina a trajetória tardia que ele teve no futebol. Nem que ele foi recusado por vários dos times relevantes da capital inglesa até, enfim, ganhar uma chance de mostrar seu talento.

Semenyo em partida da seleção ganesa (Foto: IMAGO / Jan Huebner)

Semenyo recebeu cinco ‘nãos’ até chance no futebol

Filho de Larry Semenyo, ex-jogador do futebol de Gana, Semenyo cresceu com o futebol como parte de sua vida. O pai, inclusive, foi quem o fez treinar a perna esquerda desde criança até se tornar ambidestro.

Porém, essa influência não facilitou a trajetória do jogador. Quando tinha 15 anos, lutava para ser aprovado em uma peneira e precisou aprender a lidar com a frustração. O morador de Londres tentou ingressar em Tottenham, Arsenal, Fulham, Crystal Palace e Millwall. Todos a mesma resposta: não.

A recusa do Palace, em especial, doeu mais porque passou oito meses no clube até a resposta. “Lembro de entrar no carro chorando e dizer ao meu pai: ‘Por que isso continua acontecendo comigo?’“, contou à “Sky Sports”.

— Quando você tem 15 ou 16 anos, não sabe lidar com as suas emoções. Vive altos e baixos o tempo todo — disse o atacante à “BBC” sobre sua adolescência.

Foi nessa época que decidiu, por um ano, esquecer o futebol. Focou nos estudos, nos amigos. Comia o que queria — e acabou engordando um pouco. “Eu só queria voltar a ser uma pessoa normal. Foi basicamente por isso que eu parei”, disse ao “The Times”, desabafando sobre os sacrifícios da vida de tentar entrar no futebol.

Mas não era para ser essa a sua vida. Semenyo, um cristão de muita fé, se apaixonou de novo pelo esporte ao fazer um teste aberto que o fez ingressar no futebol universitário. Nem a distância de 160 quilômetros de sua casa em Londres para a universidade South Gloucestershire and Stroud o fez desistir.

O então adolescente rapidamente se destacou. E, aí, os clubes vieram atrás dele. Birmingham City e até o Crystal Palace tentaram. Optou, porém, pela proximidade com a faculdade e chegou ao Bristol City só com 17 anos, quando muitos jovens já estão em clubes gigantes.

Com a maioridade, assinou seu primeiro contrato profissional. Foi motivo para muita emoção na família. “Lembro desse dia como se fosse ontem, e lembro da expressão no rosto da minha mãe. Ela ficou muito emocionada, muito feliz por mim, muito orgulhosa. Isso sempre ficou comigo. Vou guardar esse momento para o resto da vida”, revelou, também à “BBC”.

Antoine Semenyo antes de jogo do Bristol City em 2019 (Foto: IMAGO / PA Images)

Consolidação, porém, ainda demorou

Semenyo estava realizando um sonho, mas ainda precisaria de mais tempo para se consolidar no futebol de alto nível.

Ele foi emprestado ao Bath City, da sexta divisão inglesa, nível semiamador na Inglaterra, ao Newport County, da quarta, e ao Sunderland, na época na terceira, até, finalmente, se firmar no Bristol na Championship a partir de 2020.

Após 125 jogos e 21 gols nos Robins, deu o salto para a Premier League ao fechar com o Bournemouth em 2023. Temporada após temporada, o ganês foi marcando mais gols e distribuindo mais assistências até ser alvo de gigantes do Big Six, como Manchester United, Liverpool, Chelsea e Tottenham.

Escolheu o City, no começo de 2026, para atingir o auge da sua carreira. O atacante acredita que toda sua trajetória, com altos e baixos, o tornou melhor.

— Tive que ser uma pessoa forte [para chegar até aqui]. Sinto que, emocionalmente e mentalmente, tive que ficar muito forte. […] Tive que me esforçar bastante para superar muitos momentos difíceis, fases complicadas. Mas isso me fez o homem que sou hoje. Forte, destemido e pronto para encarar o mundo — garantiu aos canais oficiais do clube.

Pep Guardiola disse, na chegada de seu novo reforço, que seu auge ainda não foi atingido: “Semenyo está na idade perfeita, os melhores anos ainda estão por vir“.

Copa do Mundo é a chance de atacante do City mostrar mais por Gana

Ainda pelo Bristol, em 2022, o jogador foi chamado pela primeira vez à seleção de Gana e esteve no grupo que jogou a Copa do Mundo do Catar. Jovem e pouco testado, só fez duas partidas, ambas saindo do banco de reservas e somando apenas 19 minutos na campanha que terminou na primeira fase.

— Minha mãe estava chorando ao telefone. Meu pai não é de comemorar muito, mas ficou muito empolgado com minha primeira convocação. É uma honra jogar por Gana. É simplesmente um sonho realizado. Adoro voltar ao nosso país de origem e ver a família, rever os amigos também. Eles são muito apaixonados por futebol — afirmou novamente à “BBC”.

Era o retorno dos Estrelas Negras aos Mundiais após ter ficado fora em 2018, interrompendo três participações seguidas — as primeiras.

Entre o fim da última Copa e o caminho para a do meio deste ano, Semenyo se consolidou como um titular no ataque, função exercida em nove das dez rodadas das Eliminatórias Africanas — a campanha foi absoluta com oito vitórias.

Mesmo assim, porém, o atacante ainda não repetiu o nível da Inglaterra por seu país. São apenas três gols em 34 partidas pela seleção ganesa, um em amistoso e dois em Eliminatórias. Ou seja, ainda nada nas competições, apenas na qualificação. Acaba que outros nomes, como Mohammed Kudus, Iñaki Williams e Jordan Ayew, se destacam mais que o craque do Manchester City.

Sua margem de melhora é o que serve como esperança para a seleção, agora treinada pelo português Carlos Queiroz, lutar por uma vaga em mata-mata de Copa que não vem, justamente, desde 2010. Os Estrelas Negras dividem o complexo grupo L com Inglaterra, Croácia e Panamá. Em teoria, são a terceira força, mas, pela irregularidade dos concorrentes europeus, podem surpreender.

Fonte: Trivela  |  Autor: Carlos Vinicius Amorim

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