A fase eliminatória costuma mudar o clima de qualquer Copa do Mundo. O que foi construído na fase de grupos passa a servir apenas como referência, já que um erro pode significar o fim da caminhada. É justamente nesse cenário que Alemanha e Paraguai se encontram nesta segunda-feira (29), às 17h30 (de Brasília), em Boston, valendo vaga nas oitavas de final.
De um lado, uma das seleções mais tradicionais do futebol mundial, favorita pelo peso da camisa e pela qualidade do elenco, mas pressionada por um passado recente decepcionante e por uma derrota inesperada diante do Equador. Do outro, um Paraguai que ainda não convenceu no torneio, mas que chega embalado por um ciclo de reconstrução capaz de alimentar a esperança de surpreender.
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A classificação alemã veio com o primeiro lugar do Grupo E, mas o tropeço por 2 a 1 contra os equatorianos, na última rodada, mudou bastante a percepção sobre a equipe de Julian Nagelsmann. Se até então a Alemanha transmitia confiança após golear Curaçao por 7 a 1 e buscar uma vitória de personalidade sobre a Costa do Marfim por 2 a 1, a derrota expôs fragilidades que rapidamente recolocaram dúvidas em torno da seleção.
A derrota que reacendeu antigos fantasmas na Alemanha
O resultado adverso teve pouco impacto na tabela, já que a liderança estava garantida, mas pesou no aspecto psicológico. Afinal, a Alemanha ainda convive com o trauma das eliminações precoces nas Copas de 2018 e 2022, quando sequer conseguiu superar a fase de grupos. A boa campanha inicial parecia indicar que o cenário finalmente havia mudado. Bastou um revés para que críticas voltassem a ganhar força.
A atuação diante do Equador reforçou preocupações que não haviam aparecido nos primeiros compromissos. Depois de abrir o placar, a equipe perdeu intensidade, passou a errar com frequência na saída de bola e permitiu que o adversário assumisse o controle das ações. A postura excessivamente reativa chamou atenção justamente porque, em um mata-mata, situações semelhantes dificilmente oferecem margem para recuperação.
Nagelsmann atribuiu parte do revés ao elevado número de bolas perdidas e considerou que o primeiro gol equatoriano nasceu em um lance de certa dose de felicidade do rival. Ainda assim, a imprensa alemã direcionou críticas tanto às escolhas do treinador quanto ao rendimento físico da equipe.
A gestão do elenco, com mudanças entre titulares e reservas durante a partida, também entrou no debate, sob o argumento de que a prioridade teria sido preservar jogadores, e não garantir o resultado.
Ainda assim, há um aspecto que pode jogar a favor da Alemanha. O alerta aconteceu em um momento em que a derrota ainda era administrável. Agora, sem margem para novos tropeços, a tendência é de uma equipe mais concentrada, menos exposta defensivamente e consciente de que qualquer desatenção pode custar caro.
Favoritismo alemão contra o Paraguai depende de um aspecto
Mesmo pressionada, a Alemanha continua entrando em campo como favorita. A diferença técnica entre os elencos permanece significativa, principalmente pela quantidade de jogadores acostumados ao mais alto nível do futebol europeu. Além disso, o modelo de jogo de Nagelsmann privilegia posse de bola, intensidade ofensiva e ocupação constante do campo rival, características que costumam sufocar seleções de menor investimento técnico.
O desafio será transformar esse domínio territorial em segurança. Contra o Equador, o problema não foi apenas a derrota, mas a forma como ela aconteceu. A equipe perdeu o controle emocional da partida quando sofreu o empate e encontrou dificuldades para responder à pressão adversária.
Esse aspecto ganha ainda mais importância porque o Paraguai deve apresentar um cenário semelhante ao enfrentado pelos equatorianos, embora com características diferentes. Os sul-americanos dificilmente disputarão posse de bola por longos períodos. A estratégia tende a passar por linhas compactas, pouca concessão de espaços entre defesa e meio-campo e aposta nas transições rápidas sempre que recuperar a bola.
Para a Alemanha, paciência será tão importante quanto qualidade técnica. A ansiedade para resolver rapidamente pode favorecer justamente o plano do adversário, que tentará transformar cada erro alemão em oportunidade de contra-ataque.
Paraguai aposta na organização e no espírito competitivo para desafiar a lógica
Se a campanha na fase de grupos da Copa ficou abaixo da expectativa criada durante as Eliminatórias, o Paraguai chega ao mata-mata sem carregar o peso do favoritismo. Depois de sofrer uma goleada por 4 a 1 para os Estados Unidos na estreia, a equipe reagiu com uma vitória por 1 a 0 sobre a Turquia e garantiu a classificação ao empatar sem gols com a Austrália, avançando como uma das oito melhores terceiras colocadas.
O desempenho, entretanto, esteve distante daquele que levou a seleção de volta ao Mundial após 16 anos de ausência. Sob o comando de Gustavo Alfaro, o Paraguai construiu sua recuperação justamente pela consistência defensiva, competitividade e capacidade de reduzir espaços, características que nem sempre apareceram na fase de grupos.
Após o empate contra a Austrália, o treinador fez uma análise contundente sobre as limitações estruturais do futebol paraguaio. Alfaro ressaltou a diferença de hierarquia em relação às principais seleções, lembrando que poucos jogadores atuam nas grandes ligas europeias e que muitos atletas sequer conseguem se firmar em campeonatos como os do Brasil e da Argentina.
Para ele, esse desequilíbrio técnico acaba aparecendo naturalmente em competições de altíssimo nível, onde intensidade, velocidade e tomada de decisão acontecem em outro patamar.
Ao mesmo tempo, o técnico reforçou que conhece exatamente as limitações do elenco e que o Paraguai chegou até ali competindo acima das expectativas. O discurso também serve para diminuir a pressão sobre seus jogadores e fortalecer a identidade construída durante o ciclo classificatório.
Dentro de campo, dificilmente haverá mudanças radicais. A tendência é de um Paraguai bastante compacto, disposto a defender durante boa parte da partida e esperando o momento certo para acelerar pelos lados do campo ou explorar erros na construção alemã.
Embora o favoritismo esteja claramente do lado da tetracampeã mundial, o confronto reúne ingredientes que impedem qualquer excesso de confiança. A Alemanha entra pressionada para provar que a derrota para o Equador foi apenas um acidente de percurso e que, desta vez, está preparada para voltar a disputar as fases decisivas de uma Copa do Mundo.
Já o Paraguai encara o mata-mata como a oportunidade perfeita para transformar uma campanha discreta em uma das grandes histórias do torneio.
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