A Alemanha voltou ao mata-mata de uma Copa do Mundo pela primeira vez desde 2014, mas a sensação de reconstrução durou pouco. A eliminação para o Paraguai, nos pênaltis, nesta segunda-feira (29), em Boston, recolocou a seleção tetracampeã no centro de um debate que acompanha o futebol alemão há mais de uma década: afinal, o problema é circunstancial ou estrutural?
Se antes do jogo já havia pressão sobre Julian Nagelsmann, ela tende a aumentar consideravelmente. O revés não veio diante de uma potência tradicional, mas contra um adversário que executou exatamente o plano que havia prometido. A Alemanha teve mais posse de bola, controlou territorialmente a partida durante longos períodos, mas, outra vez, transformou esse domínio em muito pouco.
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A queda também amplia uma sequência que incomoda um país acostumado a disputar títulos. Desde o tetra conquistado no Brasil, em 2014, a Alemanha nunca mais conseguiu se aproximar de seu antigo patamar em Copas do Mundo. Caiu ainda na fase de grupos em 2018, voltou a ser eliminada precocemente em 2022 e, agora, sequer conseguiu sobreviver ao primeiro confronto eliminatório.
A campanha nessa Copa chegou a alimentar expectativas. O 7 a 1 sobre Curaçao na estreia empolgou, mas os sinais de alerta apareceram rapidamente. A vitória por 2 a 1 sobre a Costa do Marfim já expôs dificuldades para controlar um adversário organizado, enquanto a derrota para o Equador escancarou problemas defensivos e aumentou a pressão sobre Nagelsmann. Contra o Paraguai, todas essas dúvidas voltaram à tona.
Posse sem profundidade virou marca de uma Alemanha previsível
O aspecto que mais chamou atenção ao longo da campanha alemã foi a dificuldade para transformar qualidade técnica em superioridade real dentro das partidas.
A tetracampeã mundial continuou sendo uma equipe confortável com a bola nos pés. Circulou a posse, empurrou adversários para trás e frequentemente terminou os jogos com amplo domínio territorial. O problema é que pouco conseguiu acelerar o suficiente para desmontar defesas organizadas.
Contra o Paraguai, isso ficou evidente durante praticamente 120 minutos. A equipe de Gustavo Alfaro congestionou o setor central, fechou espaços entre as linhas e esperou o erro alemão.
Do outro lado, a seleção comandada por Nagelsmann insistiu em uma circulação lenta, pouco agressiva e previsível. As inversões demoravam, as infiltrações quase não apareciam e os jogadores ofensivos recebiam a bola sempre cercados. Apelar para cruzamentos foi a “saída” em muitos momentos.
Não foi um problema isolado. Em diferentes momentos da Copa, a Alemanha já havia encontrado dificuldades semelhantes. Mesmo nas vitórias, a sensação era de uma equipe que controlava mais do que machucava.
Nagelsmann volta ao centro das críticas em momento decisivo
Julian Nagelsmann assumiu a seleção alemã cercado de expectativas. Considerado um dos treinadores mais talentosos de sua geração, chegou com a missão de modernizar a tetracampeã mundial e recolocá-la entre as grandes forças do futebol mundial.
Em alguns momentos, houve sinais positivos. A equipe apresentou boa organização com a bola, buscou um futebol associativo e conseguiu resultados convincentes em parte do ciclo. Mas a Copa do Mundo voltou a mostrar que ainda existe uma distância importante entre controlar partidas e vencer confrontos decisivos.
A eliminação desta segunda-feira (29) dificilmente será tratada como um acidente de percurso na Alemanha. Ela reforça um debate que já existia antes mesmo do mata-mata e tende a aumentar a pressão sobre o trabalho do treinador.
Mais do que o resultado, preocupa a repetição dos problemas. A Alemanha encontrou enorme dificuldade sempre que precisou enfrentar adversários reativos, compactos e disciplinados defensivamente. Faltou velocidade para circular a bola, criatividade para encontrar espaços e contundência para transformar posse em oportunidades claras.
Em torneios de tiro curto, essas limitações costumam custar caro. Custaram novamente.
O contraste com a Alemanha campeã de 2014 também é inevitável. Aquele time conseguia alternar ritmos, pressionava imediatamente após perder a bola e encontrava diferentes caminhos para atacar. A atual seleção, embora disponha de jogadores talentosos, ainda transmite a sensação de depender excessivamente do controle territorial, sem conseguir transformar esse domínio em superioridade efetiva.
A queda diante do Paraguai não apaga o potencial desta geração, mas reforça que talento, sozinho, não basta. O Mundial voltou a expor fragilidades que acompanham os alemães há anos e que continuam sem solução definitiva.
Para um país que transformou regularidade em tradição durante décadas, a terceira campanha consecutiva abaixo das expectativas aumenta a sensação de que a reconstrução alemã ainda está longe de terminar. E, depois de mais uma eliminação frustrante, Nagelsmann dificilmente escapará de ser o principal alvo das cobranças.
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