Copa do Mundo

‘Enquanto o futebol italiano estiver nas mãos de vigaristas, a situação me parece muito complexa’

‘Enquanto o futebol italiano estiver nas mãos de vigaristas, a situação me parece muito complexa’

A crise do futebol italiano ganhou mais um capítulo nesta sexta-feira (29). Técnico interino da seleção principal da Azzurra após a saída de Gennaro Gattuso, Silvio Baldini fez duras críticas à estrutura dos clubes do país e apontou os dirigentes como os principais responsáveis pelo declínio da tetracampeã mundial nos últimos anos. Em entrevista coletiva, o treinador lamentou a falta de espaço para jovens atletas e afirmou que o sistema do futebol italiano está comprometido.

— Os jovens precisam de espaço, mas enquanto o futebol italiano estiver nas mãos de vigaristas, a situação me parece muito complexa. Não é culpa da Federação, porque nas seleções de base estamos sempre entre os melhores. O problema é que a progressão não acontece, e a culpa é dos clubes.

As declarações acontecem em meio ao cenário turbulento vivido pela Itália, que ficou fora da Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva em sua história. Sem vaga no Mundial, a equipe aproveitará a Data Fifa para disputar amistosos contra Luxemburgo, na próxima quarta-feira (3), e Grécia, no dia 7 de junho. Baldini, que estava à frente da seleção sub-21 italiana, vê os confrontos como uma oportunidade importante para observar uma nova geração de jogadores.

— Espero que estes dois jogos amigáveis possam servir a quem estiver no cargo depois de mim. Chamei jogadores muito jovens, eles têm a oportunidade de se valorizarem.

Silvio Baldini tem razão sobre o futebol italiano?

Jogadores italianos cabisbaixos após eliminação para Bósnia e Herzegovina (Foto: Gribaudi/ ImagePhoto / Imago)

A crítica do treinador interino encontra respaldo nos números. Os clubes italianos aparecem entre os mais envelhecidos da atual Champions League. Das 20 equipes com maior média de idade na competição, nove são da Itália. Além disso, a Serie A segue marcada pela presença massiva de atletas estrangeiros: 68% dos jogadores que atuaram na edição 2025/26 do Campeonato Italiano nasceram fora do país.

Para Baldini, esse contexto acaba travando o desenvolvimento dos talentos locais. Embora as categorias de base italianas sigam competitivas em torneios internacionais, muitos jovens encontram dificuldades para ter sequência e espaço nas principais equipes do país.

Não à toa, a ausência de oportunidades para esses jovens jogadores virou um dos principais temas de debate dentro do futebol italiano. Como citado, diversos clubes passaram a apostar em atletas experientes e em contratações estrangeiras imediatistas, deixando em segundo plano o desenvolvimento de talentos formados no próprio país.

O reflexo aparece diretamente na seleção. A Itália perdeu competitividade em torneios internacionais e já não consegue repetir o protagonismo que marcou gerações históricas. A equipe tetracampeã mundial, que dominou o futebol europeu no início dos anos 2000, hoje enfrenta dificuldades para renovar seu elenco e manter uma identidade sólida.

Mesmo sem disputar a Copa do Mundo, a Azzurra terá compromissos importantes nos próximos meses. Depois dos amistosos desta Data Fifa, a equipe voltará a campo oficialmente apenas no fim de setembro, quando enfrentará a Bélgica pela Liga das Nações.

O que está por trás dessa crise estrutural?

Seleção italiana perfilada antes de jogo contra a Bósnia e Herzegovina (Foto: Emmanuele Mastrodonato / IPA Sport / Imago)

O problema vai muito além de resultados recentes. A crise do futebol italiano é considerada estrutural e envolve uma série de fatores acumulados ao longo dos últimos anos. Escândalos esportivos, administrações ruins, dificuldade na modernização dos clubes e estádios obsoletos contribuíram para o enfraquecimento do país no cenário internacional.

A não ida para terceira Copa do Mundo consecutiva escancarou ainda mais esse cenário preocupante. A seleção já havia fracassado nas repescagens para os Mundiais de 2018 e 2022, em eliminações traumáticas diante de Suécia e Macedônia do Norte, respectivamente. Agora, o novo tropeço — diante da Bósnia e Herzegovina — reforça a sensação de que o futebol italiano atravessa uma das fases mais delicadas de sua história.

Além da dificuldade esportiva, o país também sofre para acompanhar a evolução financeira e estrutural de outras grandes ligas europeias. Clubes da Inglaterra, Espanha e Alemanha ampliaram investimentos em formação, infraestrutura e captação de talentos, enquanto muitos times italianos permaneceram presos a modelos antigos de gestão.

Fonte: Trivela  |  Autor: Guilherme Calvano

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